quinta-feira, junho 28, 2007

Teologia Ascética e Mística: A Soberba




"O orgulho diz Bossuet, é uma depravação mais profunda; por ele o homem, entregue a si mesmo, considera-se seu próprio Deus, pelo excesso do seu amor-próprio". Esquecendo que Deus é seu primeiro princípio e último fim, estima-se a si mesmo em excesso, aprecia as verdadeiras ou pretensas qualidades, como se foram suas, sem as referir a Deus. Daí esse espírito de independência ou de autonomia que o leva a subtrair-se à autoridade de Deus ou dos seus representantes; esse egoísmo que o inclina para si mesmo como se fora seu próprio fim: essa vã complacência que se deleita na própria excelência, como se Deus não fosse dela o autor.


Os efeitos do orgulho são deploráveis: é o maior inimigo da perfeição: 1) porque rouba a Deus a glória, e por isso mesmo nos priva de muitas graças e merecimentos, pois Deus não quer ser cumplice da nossa soberba; 2) é a fonte de numerosos pecados: pecados de presunção, punidos com quedas lamentáveis e vícios odiosos; de desânimo, quando o orgulho vê que caiu tão baixo; de dissimulação, porque lhe custa confessar as suas desordens; da resistência aos superiores, de inveja e ciúme a respeito do próximo, etc.


O remédio para tal mazela em primeiro lugar é o reconhecimento de que Deus é o autor de todo bem e que, sendo o primeiro princípio de nossas ações, deve ser o último fim. Este é o remédio que sugere São Paulo Apóstolo: "Que tem tu que não tenhas recebido? E se o recebeste, porque te glorias, como se não houveras recebido?" Donde conclui que todas as nossas ações devem tender à glória de Deus.


Como, porém, a nossa natureza nos leva constantemente a buscar-nos a nós mesmos, é necessário para reagir contra essa tendência, lembrando-nos mesmo não somos mais que nada e pecados. Há em nós sem dúvida, boas qualidades naturais e sobrenaturais, que soberanamente devemos estimar e cultivar; mas como estas qualidades vem de Deus, não é porventura a Deus que por causa delas devemos glorificar? Quando um artista saiu com uma obra-prima, a quem se devem os elogios? À tela ou ao seu autor?




(Fonte: Compêndio da teologia Ascética e Mística - Livraria Apostolado da Imprensa: 1960)

Nenhum comentário: